em

ALOS3 e o 2T26: o shopping virou plataforma.

Quando você anda por um shopping da Allos, provavelmente não imagina que aquele mesmo espaço rende dinheiro de três formas diferentes ao mesmo tempo. E é justamente aí que mora a tese de ALOS3, mas, antes dos números, vamos entender melhor a companhia.

A Allos é o resultado da combinação de três empresas com histórias distintas: brMalls, Aliansce e Sonae Sierra Brasil. A Aliansce e a Sonae se fundiram em 2019 (Aliansce Sonae), que por sua vez se uniu à brMalls em janeiro de 2023, e o grupo passou a se chamar Allos em agosto daquele ano.

O resultado dessa consolidação é a maior plataforma de shopping centers da América Latina, com dezenas de shoppings, mais de 13 mil lojas e presença em 16 estados, das cinco regiões do país.

E a tese de ALOS3 não cabe mais na palavra “shopping”. O que o resultado deste trimestre mostra é uma empresa que usa o metro quadrado físico como base para três motores de receita cada vez mais relevantes: aluguel, mídia e desenvolvimento imobiliário.

Como a Allos ganha dinheiro

  • Receita de locação (63,5% da receita líquida): o “juro do imóvel”. É o aluguel dos lojistas. Mínimo (a parte fixa contratada), percentual (uma fatia das vendas da loja) e mall. Maior e mais estável fonte;
  • Resultado de estacionamento (16,9%): receita de alta margem que reage a fluxo e ticket;
  • Receita de serviços (14,7%): administração, comercialização e, crescentemente, mídia (a helloo). A linha que mais cresce;
  • Outras receitas (3,9%) e CDU (1,0%): aqui entra o desenvolvimento imobiliário, monetização de terrenos próprios.

O ponto central do case: a Allos deixou de ser uma locadora de espaço e virou uma plataforma de relacionamento e dados, que aluga metro quadrado, vende atenção (mídia) e monetiza terreno usando o mesmo ativo físico como base.

O 2T26: FFO acelera e cresce 12%

A Allos entregou FFO de R$ 340,8 milhões (+12,0% a/a; +15,8% ex-Tijuca), num cenário de juros ainda elevados. A receita líquida somou R$ 732,3 milhões (+11,6%), o EBITDA ajustado atingiu R$ 525,4 milhões (+10,5%; +12,7% ex-Tijuca) e o lucro líquido gerencial saltou para R$ 294,0 milhões (+57,7% a/a). 

Um detalhe recorrente no release: quase tudo vem com uma versão “ex-Tijuca”. O Shopping Tijuca passou por grande expansão (o rooftop Taste, inaugurado em junho) e ainda distorce a base, efeitos pontuais de custo e PDD nesse ativo puxam os números “cheios” para baixo. A leitura ex-Tijuca mostra o ritmo real do negócio.

Mas, como sempre gostamos de fazer por aqui, o que informa a tese não é a linha do FFO, e sim entender de onde ele vem. Vamos aos motores.

Locação e ocupação: o alicerce resiliente, mas pressionado

A locação atingiu R$ 498,7 milhões (+2,6%; +4,1% ex-Tijuca). O SSR (aluguel mesmas lojas), variação do aluguel só das lojas que já existiam no ano anterior, o crescimento “orgânico”, foi de 3,2% (4,6% ex-Tijuca), acima da inflação.

O ponto de atenção veio do SSS (vendas mesmas lojas), mesma lógica, mas medindo as vendas das lojas: desacelerou para 2,4% (2,6% ex-Tijuca), contra 7,1% no 2T25, impacto do descasamento da Páscoa e dos jogos da Copa do Mundo, que tiram fluxo. É efeito calendário, não quebra estrutural.

Vale o tamanho da operação: as vendas totais somaram R$ 10,5 bilhões (+4,6% ex-Tijuca) e as vendas por m² chegaram a R$ 2.061 (+4,0%). Por região, o Norte liderou (+8,6%), seguido do Sudeste (+4,2%), com destaques como o Shopping Grande Rio (+12,4%).

A base segue saudável: taxa de ocupação de 96,3% (ex-Tijuca) e custo de ocupação em 10,3% das vendas, estável, indicador que mede quanto o aluguel pesa no bolso do lojista, e que em nível controlado sinaliza contratos sustentáveis.

NOI, inadimplência e a “usina” de caixa

O NOI (a receita dos shoppings menos os custos operacionais, o “lucro puro” do imóvel) somou R$ 601,3 milhões (+3,8%; +5,2% ex-Tijuca), com margem de 92%. A inadimplência líquida caiu para 1,4% (de 1,9%), sinal de carteira de lojistas saudável.

Mídia: o motor que mudou de patamar

Se há uma vertical que redefine a tese, é esta. A receita de mídia somou R$ 83,4 milhões, alta de 84,5% a/a, e já representa 10,6% da receita bruta (+420 bps a/a).

O vetor foi a helloo, plataforma de mídia do grupo, que protagonizou um projeto multiplataforma na cobertura da Copa do Mundo, com anunciantes como C6 Bank, Coca-Cola, Hyundai, Diageo e Casas Bahia. E a companhia avança em mídia de aeroportos: com o novo terminal de Uberlândia, o consórcio helloo/NEOOH consolidará a gestão em 12 aeroportos ainda em 2026.

O racional é poderoso: mídia tem margem menor que aluguel, mas é pouco intensiva em capital. Cresce receita e rentabilidade sem grandes desembolsos. O tipo de alavanca que o mercado valoriza numa empresa de ativos pesados.

Desenvolvimento imobiliário: monetizar terreno sem queimar caixa

O terceiro motor explica boa parte de “outras receitas”. No 2T26, a Allos concluiu a escritura definitiva do terreno de Uberlândia (venda para a Perplan), gerando mais de R$ 15 milhões de resultado, sem alocação relevante de recursos.

O pipeline é robusto: 72 torres multiúso assinadas (9 entregues) e 1,74 milhão de m² disponíveis. O destaque foi o masterplan do Parque Dom Pedro, em Campinas: 300 mil m² em 17 torres, VGV potencial de R$ 4,5 bilhões e alvará do hotel já emitido.

A lógica é elegante: transformar terreno ocioso em receita e em fluxo recorrente para o próprio shopping, o mesmo “placemaking” do Taste, que fez R$ 5 milhões em vendas no 1º mês (22% acima da projeção).

A plataforma invisível: dados

Por trás do físico há um ativo que não aparece direito no balanço. A plataforma digital atingiu 17,1 milhões de sessões (+12%) e GMV reconhecido de R$ 1,56 bilhão (+31%), e o Programa de Benefícios elevou em 15% a frequência de visitas de quem aderiu (chegando a 31% nos shoppings mais maduros). É o que qualifica a mídia com público segmentado e fideliza o fluxo, o elo que conecta os três motores.

Eficiência, resultado financeiro e endividamento

A disciplina de despesas apareceu: o Projeto Simplifica Allos cortou o SG&A para R$ 105,8 milhões (-5,6% a/a), mesmo com reajuste de convenção coletiva, despesa caindo com receita subindo é o que expande margem.

O contraponto está no resultado financeiro: com a Selic alta e a captação de R$ 1 bilhão em abril, o resultado financeiro recorrente piorou para -R$ 134,4 milhões (de -R$ 101,0 mi). Mas a gestão de passivos reduziu o custo médio da dívida para CDI + 0,57% (ante CDI + 0,75%), e a alavancagem segue baixa em 1,7x dívida líquida/EBITDA.

E aqui mora um ponto de solidez que costuma passar batido: o cronograma de amortização é folgadíssimo no curto prazo. Em 2026 vencem apenas R$ 113,1 milhões e, em 2027, meros R$ 37,9 milhões, com o grosso da dívida concentrado só a partir de 2028 (R$ 742,1 mi) e 2029 (R$ 973,7 mi). Traduzindo: a companhia praticamente não tem pressão de refinanciamento pelos próximos dois anos, o que dá tranquilidade para atravessar o cenário de juros altos sem sufoco.

Essa folga se sustenta num caixa robusto: a companhia gerou R$ 833,6 milhões de caixa operacional no semestre e ainda pagou R$ 1,2 bilhão aos acionistas em 2026, entre dividendos e JCP até o momento.

Dividendos: o mensal que virou marca da Allos

Aqui entra um dos pontos mais atrativos do case para o investidor de renda passiva: a Allos paga proventos mensalmente. O último foi de R$ 0,29 por ação, e a companhia reforçou no release o guidance de dividendos/JCP entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por ação, por mês, ao longo de 2026.

Com a ação negociando na casa dos R$ 27 nas últimas semanas, esse pagamento mensal representa um yield de mais de 1% ao mês, patamar que chama atenção num REIT/dona de shoppings, ainda mais sendo distribuído de forma pulverizada mês a mês, e não em um ou dois pagamentos concentrados no ano.

E é aqui que os pontos que vimos antes se conectam: a alavancagem baixa (1,7x) e, principalmente, o cronograma de amortização folgado (quase nada vence em 2026 e 2027) reduzem a pressão sobre o caixa no curto prazo. Somando isso à geração de caixa robusta e ao guidance reafirmado, as chances de esse patamar de R$ 0,29 mensais seguir sustentável em 2027 aumentam, algo que uma empresa endividada e com muros de vencimento à frente dificilmente conseguiria prometer.

Riscos a monitorar

  • SSS fraco: a desaceleração (2,4%) tem componente de calendário, mas precisa reacelerar para sustentar aluguel percentual e SSR;
  • Mídia concentrada em eventos: o salto de 84,5% teve impulso da Copa, vale ver se mantém ritmo sem grande evento esportivo;
  • Juros elevados: o resultado financeiro pesa enquanto a Selic seguir alta; a baixa alavancagem protege, mas o carrego pode doer;
  • Ruído do Tijuca: os efeitos pontuais devem normalizar, mas ainda distorcem a base.

Conclusão

O 2T26 confirma a tese de ALOS3: uma dona de shoppings que está deliberadamente deixando de ser só dona de shoppings. O alicerce (aluguel) segue firme, ocupação de 96%, inadimplência caindo, NOI crescendo e SSR real positivo. E o crescimento veio das pontas de maior alavancagem: mídia e desenvolvimento imobiliário, ambos pouco intensivos em capital.

O ruído do trimestre: SSS fraco, efeito Tijuca e o peso dos juros no financeiro. Tem muito de calendário e de contexto macro, não de deterioração estrutural. Enquanto isso, a empresa cortou despesa, baixou o custo da dívida, gerou caixa e manteve a alavancagem em 1,7x.

No fim das contas, a leitura que fica é a de uma empresa que aprendeu a extrair mais de cada metro quadrado que já possui: aluga o piso, vende a atenção de quem passa e ergue torres sobre o próprio estacionamento. A Allos usa o mesmo ativo para gerar três receitas diferentes, e é essa engenhosidade que sustenta o case. O desafio da tese não é a qualidade dos ativos, mas a paciência de esperar as novas verticais amadurecerem enquanto os juros seguem altos.

Abraços!

Analista Dedicado

Escrito por Diego Castro

Estou no mercado financeiro como investidor desde 2011 e, ao longo dessa jornada, a bolsa deixou de ser apenas números e gráficos para se tornar uma verdadeira escola de aprendizado na minha vida. Investir virou muito mais do que um hobby, é uma paixão!

Acredito no poder do longo prazo, em empresas sólidas e boas pagadoras de dividendos, mas sempre atento às oportunidades de curto e médio prazo, especialmente com ações e opções. Sou movido por aprendizado constante, e pela vontade de evoluir todos os dias como investidor. Acredito demais no poder da educação financeira, então, mais do que buscar resultados, meu objetivo é compartilhar conhecimento de forma simples, prática e responsável, e incentivar, cada vez mais, pessoas a investirem com consciência, disciplina e visão de futuro.

Primeiro LoginPrimeiro ComentárioPrimeira contribuiçãoLeitorComentaristaAutor

O QUE VOCÊ ACHOU?

Deixe um comentário