Olá, Clube Investfy!
Nesta semana, discutimos a Amazon e os riscos e oportunidades envolvidos em liderar o próximo ciclo estrutural da Inteligência Artificial.
A Amazon encerra o 4T2025 reforçando uma característica que sempre definiu a companhia: crescer em escala relevante enquanto investe agressivamente para ampliar suas vantagens competitivas de longo prazo. Os números do trimestre deixam claro que a empresa atravessa um novo ciclo de investimentos intensivos — sobretudo em AWS e Inteligência Artificial — que pressiona o free cash flow no curto prazo, mas fortalece o moat estrutural do negócio.
1- Como a Amazon ganha dinheiro (sem mudanças na essência)
O modelo de negócios permanece alicerçado em três grandes pilares:
- North America e International Retail: vendas online e físicas, serviços para terceiros, publicidade e assinaturas (Prime).
- AWS (Amazon Web Services): computação em nuvem, infraestrutura, dados e, cada vez mais, serviços de IA.
- Outros negócios: iniciativas ainda incipientes, como Amazon Pharmacy, Project Kuiper (LEO), dispositivos e mídia.
A diversificação continua ampla, mas o ponto central permanece o mesmo: escala, eficiência logística, dados e tecnologia, com forte reinvestimento dos fluxos gerados.
2- Análise dos números – 4T2025
No 4T2025, a Amazon apresentou resultados robustos em praticamente todas as linhas relevantes:
- Receita líquida: US$ 213,4 bilhões, crescimento de 14% YoY (12% excluindo efeito cambial).
- Lucro operacional: US$ 25,0 bilhões, acima do 4T2024, mesmo após US$ 2,4 bilhões em encargos pontuais (acordos fiscais, reestruturações e impairments).
- Lucro líquido: US$ 21,2 bilhões, com EPS diluído de US$ 1,95.
- AWS:
- Receita de US$ 35,6 bilhões (+24% YoY), o maior ritmo de crescimento em 13 trimestres.
- Lucro operacional de US$ 12,5 bilhões, com margem em torno de 35%.
- Publicidade: crescimento de 22% YoY, atingindo US$ 21,3 bilhões no trimestre.
No acumulado de 2025, a companhia entregou:
- Receita anual de US$ 716,9 bilhões (+12%)
- Lucro operacional de US$ 80 bilhões
- Lucro líquido de US$ 77,7 bilhões (+31%)
Esses números reforçam que, mesmo em um ciclo de investimentos pesados, a rentabilidade operacional segue elevada e crescente.
3- O ponto sensível: Free Cash Flow
O principal ponto de atenção continua sendo o Free Cash Flow:
- FCF TTM caiu para US$ 11,2 bilhões, frente a US$ 38,2 bilhões no ano anterior.
- A explicação é clara e explícita: CapEx recorde, com aumento de mais de US$ 50 bilhões em investimentos, direcionados principalmente para data centers, chips proprietários e infraestrutura de IA
Aqui é importante separar sinal de ruído. A compressão do FCF não decorre de deterioração operacional, mas sim de decisão consciente de alocação de capital, algo recorrente na história da Amazon.
4- AWS e IA: onde está o verdadeiro motor de valor
A call de resultados deixa claro que a Amazon enxerga a IA como um evento estrutural, não cíclico. A AWS hoje opera com:
- Run rate anualizado de US$ 142 bilhões.
- Backlog de US$ 244 bilhões, crescendo cerca de 40% YoY.
- Forte demanda tanto em workloads tradicionais quanto em IA generativa e agentes autônomos.
O diferencial competitivo está na integração vertical:
- Chips próprios (Trainium e Graviton), já com run rate superior a US$ 10 bilhões.
- Melhor relação custo-performance, reduzindo dependência de GPUs de terceiros.
- Stack completa: infraestrutura, modelos (Bedrock, Nova), ferramentas de agentes (AgentCore) e aplicações.
Esse conjunto reforça o moat da AWS e explica por que a empresa está disposta a investir cerca de US$ 200 bilhões em CapEx em 2026, com expectativa explícita de forte retorno sobre o capital investido no longo prazo.
5- Varejo: eficiência silenciosa
No varejo, o discurso é menos chamativo, mas igualmente relevante:
- Crescimento consistente em itens essenciais e grocery, aumentando frequência de compra.
- Avanços logísticos relevantes: regionalização, automação e robótica.
- Entregas same-day e next-day batendo recordes, ao mesmo tempo em que o custo de servir continua caindo.
A margem operacional da América do Norte subiu para cerca de 9%, um patamar impensável para o negócio de varejo da Amazon alguns anos atrás.
6- Linha do tempo dos próximos 12 meses
- Pressão temporária nas margens operacionais no início de 2026 devido a aproximadamente US$ 1 bilhão em custos relacionados ao Projeto Kuiper (LEO), que ainda são majoritariamente reconhecidos como despesa, e não capitalizados.
- Aceleração dos investimentos (capex) ao longo de 2026, predominantemente direcionados à infraestrutura da AWS, data centers e silício proprietário (Trainium e Graviton), em linha com o foco de longo prazo da gestão em ROIC.
- Oferta do Trainium 3 amplamente comprometida até meados de 2026, refletindo demanda sustentada por menor custo por inferência e treinamento em comparação com GPUs de terceiros.
- Avanço progressivo do Projeto Kuiper (LEO) ao longo de 2026, com mais de 20 lançamentos de satélites planejados, migrando de clientes piloto para uma disponibilidade comercial mais ampla.
- Mudança gradual no tratamento contábil dos investimentos em LEO, com uma parcela maior dos custos sendo capitalizada ao longo de 2026, aliviando parcialmente a pressão sobre o lucro operacional reportado.
- Expansão contínua das entregas no mesmo dia, supermercado e quick commerce, especialmente fora dos EUA, com foco em aumentar a frequência de compras e melhorar a economia unitária do varejo.
- Crescimento contínuo da publicidade, impulsionado por anúncios no Prime Video e ferramentas de IA para anunciantes, dando sequência ao forte momentum observado em 2025.
- Conversão do backlog da AWS em receita, sustentando o crescimento apesar de uma base comparativa mais elevada e reforçando a visibilidade da demanda futura.
- Fase de transição no final de 2026, com o mercado começando a avaliar os retornos iniciais do atual ciclo de investimentos em IA e infraestrutura, antes das entregas do Trainium 4, esperadas a partir de 2027
7- Riscos e pontos de atenção
- Execução do CapEx: retornos abaixo do esperado em IA poderiam pressionar múltiplos.
- Volatilidade do FCF: investidores mais conservadores podem se incomodar com a assimetria entre lucro contábil e caixa.
- Concorrência em nuvem e IA: embora a AWS ainda lidere, o ambiente é cada vez mais competitivo.
- Geopolítica e regulação, especialmente no varejo internacional.
Conclusão
A Amazon encerra o 4T2025 mais lucrativa, mais eficiente e mais estratégica, ainda que temporariamente menos geradora de caixa. A empresa opta, mais uma vez, por sacrificar conforto de curto prazo para ampliar suas vantagens estruturais.Do ponto de vista fundamentalista, o que se observa não é uma deterioração do negócio, mas sim uma intensificação deliberada do reinvestimento, especialmente em áreas com alto potencial de retorno incremental. Como em outros momentos da sua história, a Amazon parece disposta a pagar o preço hoje para continuar difícil de ser combatida amanhã.
A corrida é longa, o desfecho ainda é incerto, agora resta saber se a Amazon cruzará a linha de chegada na frente mais uma vez.
Forte Abraço,
Rodrigo Silveira







Excelente, Rodrigo! Mto obrigado pelas informações!