em

Brasil barato? Nem tanto…

O mercado latino-americano voltou a negociar com múltiplos abaixo da média histórica, mas o relatório recente, do BofA sobre LatAm, mostra que o investidor ainda não está disposto a comprar a tese de forma ampla. A razão é simples: a região ficou mais barata, mas o conjunto de riscos também ficou mais pesado. Juros globais mais altos, ruído político, menor apetite por risco e revisões negativas de lucro mudaram o tom da discussão. 

A principal mensagem do relatório não é que LatAm deixou de ter valor. É que o valuation, sozinho, já não parece suficiente. O investidor passou a exigir mais evidência de crescimento de lucro, maior estabilidade macro e um prêmio de risco mais convincente antes de aumentar exposição.

O desconto existe, mas não resolve a história

No Brasil, o argumento de valuation continua presente. O Ibovespa negocia a 8,5 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, contra uma média histórica de 10,6 vezes. Isso representa um desconto de 19% em relação ao padrão histórico. Em um primeiro olhar, o número sugere uma bolsa barata.

Mas o relatório faz uma distinção importante: o Brasil ex-commodities está muito menos descontado. Quando commodities são retiradas da conta, o mercado brasileiro negocia a 10,1 vezes P/E, apenas 7% abaixo da média histórica de 10,8 vezes. Ou seja, o índice cheio parece mais barato do que a bolsa doméstica de fato está.

Esse é um ponto crítico para investidores. Parte do desconto do Ibovespa está concentrada em setores como commodities e bancos, que têm dinâmicas próprias de lucro, risco e valuation. Para quem busca exposição ao ciclo doméstico brasileiro — consumo, serviços, varejo, indústria local e empresas mais sensíveis a juros — o desconto é menor e a visibilidade de resultados piorou.

O problema agora está no lucro

O segundo eixo do relatório é a revisão de lucros. O BofA destaca que as expectativas de crescimento de EPS para setores domésticos brasileiros foram revisadas para baixo nos últimos meses. A projeção de crescimento de lucro para 2026 caiu de cerca de 35% em janeiro para 22%.

Essa mudança altera a leitura do valuation. Uma bolsa a múltiplos baixos pode ser uma oportunidade quando os lucros estão estáveis ou sendo revisados para cima. Mas, quando o lucro esperado começa a cair, o múltiplo baixo pode simplesmente refletir uma percepção mais fraca sobre o futuro.

O relatório também aponta que os resultados do 1T26 foram fracos para empresas de consumo no Brasil. O crescimento de lucro do Ibovespa ex-commodities ficou concentrado em distribuição de combustíveis, alguns bancos e utilities. Não houve, portanto, uma melhora disseminada entre os setores domésticos.

Mesmo os grandes bancos brasileiros, que tradicionalmente ajudam a sustentar a tese de Brasil por liquidez, rentabilidade e peso no índice, também sofreram revisões negativas nas estimativas de lucro para 2026. Isso reduz a força de um dos pilares mais importantes do mercado local.

O problema agora está no lucro

O segundo eixo do relatório é a revisão de lucros. O BofA destaca que as expectativas de crescimento de EPS para setores domésticos brasileiros foram revisadas para baixo nos últimos meses. A projeção de crescimento de lucro para 2026 caiu de cerca de 35% em janeiro para 22%.

Essa mudança altera a leitura do valuation. Uma bolsa a múltiplos baixos pode ser uma oportunidade quando os lucros estão estáveis ou sendo revisados para cima. Mas, quando o lucro esperado começa a cair, o múltiplo baixo pode simplesmente refletir uma percepção mais fraca sobre o futuro.

O relatório também aponta que os resultados do 1T26 foram fracos para empresas de consumo no Brasil. O crescimento de lucro do Ibovespa ex-commodities ficou concentrado em distribuição de combustíveis, alguns bancos e utilities. Não houve, portanto, uma melhora disseminada entre os setores domésticos.

Mesmo os grandes bancos brasileiros, que tradicionalmente ajudam a sustentar a tese de Brasil por liquidez, rentabilidade e peso no índice, também sofreram revisões negativas nas estimativas de lucro para 2026. Isso reduz a força de um dos pilares mais importantes do mercado local.

Revisões ainda frágeis na LatAm

O Earnings Revision Ratio, indicador que mede a proporção entre revisões positivas e negativas de lucro, está em 0,9 para LatAm. A leitura não é dramática, mas também não é confortável. Um número abaixo de 1 indica que as revisões negativas ainda superam as positivas.

No Brasil, o indicador agregado está em torno de 1,0, sugerindo equilíbrio. Mas a composição é desigual. O destaque positivo é comunicação, com ERR setorial de 3,4, muito acima dos demais setores. Isso mostra que ainda existem bolsões de revisão favorável, mas eles não são suficientes para mudar a leitura geral: o ambiente de lucros ficou mais seletivo.

A consequência para alocação é direta. O investidor não pode tratar Brasil ou LatAm como uma compra homogênea. O mercado está diferenciando empresas com revisão positiva, geração de caixa e balanço sólido daquelas que dependem apenas de uma melhora macro futura.

Fluxo: ainda positivo, mas menos confortável

O BofA também chama atenção para uma mudança no comportamento dos fluxos. Há uma rotação global para estratégias amplas de mercados emergentes. Os fluxos para EM ex-China seguem positivos no ano, mas LatAm representa apenas uma parcela pequena desse movimento.

Isso importa porque o problema não é uma rejeição completa a emergentes. O investidor global ainda busca exposição à classe, mas parece mais seletivo na escolha das geografias. LatAm, apesar do desconto, não está capturando uma fatia dominante dessa rotação.

No Brasil, os fundos locais de ações tiveram uma leve entrada na semana, de cerca de R$90 milhões, em contraste com uma média de saída semanal próxima de R$600 milhões no 1T26. O dado é marginalmente positivo, mas ainda insuficiente para indicar uma virada estrutural da indústria local de ações.

O contraste com a renda fixa continua forte. Fundos de renda fixa no Brasil acumulam aproximadamente R$202 bilhões de entrada no ano, favorecidos pelo nível elevado da taxa de juros. Esse número reforça um dos principais desafios para a bolsa brasileira: enquanto o investidor local conseguir capturar retorno elevado com menor volatilidade, a migração para renda variável tende a ser gradual e bastante exigente.

Gestores seguem defensivos

A LatAm Fund Manager Survey reforça o tom de cautela. Os níveis de caixa dos gestores estão acima da média histórica, sinal clássico de menor convicção em risco. Na prática, isso indica que muitos investidores preferem manter flexibilidade em vez de aumentar agressivamente exposição a ações.

A composição setorial também é defensiva. Utilities aparece como o setor mais overweight. A preferência por utilities costuma refletir busca por previsibilidade, fluxo de caixa mais estável, regulação e menor sensibilidade ao ciclo econômico.

Na outra ponta, consumo segue entre os setores mais underweight. O relatório destaca subalocação em consumo discricionário, consumo básico, comunicação e industriais. A mensagem é clara: gestores ainda evitam setores mais dependentes de aceleração doméstica, expansão de crédito, melhora de renda e queda mais rápida dos juros.

Essa leitura setorial favorece estabilidade, dividendos e previsibilidade, em vez de exposição agressiva ao ciclo doméstico. Em outras palavras, o investidor quer carregar risco, mas quer ser pago por isso — e não apenas comprar beta de mercado.

Dois Brasis na bolsa: crescimento ou valor

Um dos pontos mais interessantes do relatório é a separação feita pelo BofA entre dois estilos de investimento no Brasil.

O primeiro grupo é o “Brazilian Magnificent 7”, composto por Mercado Libre, Nubank, WEG, BTG Pactual, Raia Drogasil, Localiza e Itaú. O viés aqui é de crescimento, escala, rentabilidade e qualidade de execução. São empresas que, em diferentes setores, combinam posição competitiva forte com capacidade de capturar tendências estruturais.

Esse grupo subiu 2,8% na semana do relatório, acima do Ibovespa, que avançou 1,6%. O desempenho mostra que, mesmo em um ambiente mais cauteloso, o mercado ainda paga por empresas com crescimento mais visível, vantagens competitivas e histórico de execução.

O segundo grupo é o “Unforgettable 7”, formado por Petrobras, Vale, JBS, Banco do Brasil, Ambev, Bradesco e Gerdau. Aqui, o perfil é diferente: valor, geração de caixa, setores maduros, dividendos e valuations mais descontados. O grupo também subiu 2,8% na semana, sinalizando que o investidor não está premiando apenas crescimento. Há demanda por valor, desde que o caixa seja forte e o preço ofereça margem de segurança.

Essa divisão ajuda a entender o momento atual. A discussão deixou de ser simplesmente “comprar Brasil” ou “vender Brasil”. A pergunta correta é: qual Brasil comprar?

O “Brazilian Magnificent 7” conversa com uma carteira de qualidade e crescimento. O “Unforgettable 7” conversa com uma carteira de valor, dividendos e caixa. Ambos podem fazer sentido, mas por razões diferentes. O erro seria tratar os dois grupos como parte da mesma tese.

A leitura macro: cautela, não capitulação

A mensagem macro do relatório é de cautela. Há fluxo acumulado ainda positivo, valuations descontados e alguns setores com revisão favorável. Mas o humor piorou, as revisões de lucro enfraqueceram e o investidor está mais exigente.

O principal risco para LatAm é a combinação de juros globais altos, política e revisões negativas de lucro. Esses fatores reduzem o apetite por risco e dificultam uma reprecificação ampla da região. Para que o desconto de valuation se transforme em uma tese mais forte, será necessário que os lucros parem de ser revisados para baixo e que o investidor volte a enxergar prêmio suficiente para aumentar exposição.

O principal ponto positivo é que os fluxos acumulados ainda não colapsaram. Apesar da saída recente e da piora de humor, Brasil e LatAm continuam mostrando entradas relevantes no acumulado do ano em algumas métricas. Isso impede uma leitura excessivamente negativa.

Brasil fica no meio do caminho

O Brasil aparece em uma posição intermediária. Está barato no índice cheio, mas bem menos barato quando se excluem commodities. Tem fluxo estrangeiro acumulado positivo, mas sofreu saída recente. Tem alguns setores com revisões positivas, mas também deterioração relevante em setores domésticos e bancos. Tem grupos de ações performando bem, mas não oferece uma tese simples de compra ampla do mercado.

A conclusão é que LatAm saiu de um cenário sustentado por fluxo, valuation e otimismo relativo para uma fase mais frágil. O investidor agora exige maior prêmio de risco e tende a privilegiar posições defensivas, valor relativo e seletividade.

Para portfólios, a implicação é clara: menos beta e mais curadoria. O momento favorece empresas com geração de caixa, qualidade, dividendos sustentáveis, balanços sólidos e valuation realmente descontado. A região pode ter oportunidades, mas o relatório do BofA sugere que elas estão mais na seleção de ativos do que em uma aposta direcional ampla em LatAm.

Time Investfy

Escrito por Murilo

Amigo do clube.

Investfy crew.

AutorPrimeiro ComentárioPrimeiro LoginPrimeira contribuiçãoLeitorComentarista

O QUE VOCÊ ACHOU?

Deixe um comentário

4 Comentários