No mercado, o clique nunca é o fim da história.
Ele é apenas o começo do que pode ser um novo desafio.
No artigo anterior, exploramos o inimigo que age antes da decisão — o medo de ficar de fora, a ilusão de controle, a comparação, o impulso travestido de oportunidade.
Mas existe um adversário igualmente persistente, que aparece depois que o preço anda, depois que o gráfico se forma, depois que o resultado é conhecido.
Ele não grita.
Ele sussurra.
E quase sempre começa com a mesma frase:
“Eu devia ter feito diferente.”
Esse inimigo se chama arrependimento.
E, por que muitas vezes não ficamos satisfeitos, mesmo quando acertamos?
Você pode ganhar dinheiro hoje e, ainda assim, ir dormir se sentindo derrotado.
Pode fazer exatamente o que sua estratégia mandava e, horas depois, se perguntar por que não fez diferente.
Pode acertar o trade — e mesmo assim carregar a sensação incômoda de que perdeu alguma coisa.
Esse desconforto silencioso acompanha investidores iniciantes e veteranos, conservadores e agressivos, grafistas e fundamentalistas.
Ele não aparece nos extratos, mas pesa mais do que qualquer prejuízo.
Se você já saiu de uma operação vencedora pensando: “Devia ter segurado mais.”
Ou de uma operação perdedora pensando: “Eu sabia que isso ia acontecer.”
então você já conhece o verdadeiro custo emocional do mercado.
A maior característica de um investidor não é disciplina, nem paciência, nem inteligência financeira.
É conviver diariamente com escolhas irreversíveis em um ambiente que só revela a resposta depois que o tempo passou.
O nome disso não é falta de preparo. É arrependimento — a identidade silenciosa de quem vive em um ambiente onde cada decisão fecha milhares de futuros possíveis.
E ele aparece sempre, em qualquer cenário:
Até quando tudo dá certo, ele encontra um jeito de entrar pela fresta: o lucro que ficou “na mesa”, o ponto de saída que poderia ter sido melhor, o timing que nunca parece perfeito.
A boa notícia é que esse ciclo não nasce do mercado, que muitas vezes é tratado como um lugar hostil, de forma equivocada.
Nasce de dois vieses psicológicos profundamente humanos.
1. O viés da retrospectiva: quando o passado sempre foi óbvio
Em Rápido e Devagar, Daniel Kahneman escreve:
“Após o resultado ser conhecido, ele parece ter sido previsível o tempo todo.”
Depois que o preço anda, o cérebro reconstrói a história como se o desfecho fosse evidente.
A incerteza original desaparece. E então surge a frase mais perigosa do mercado:
“Estava na cara.”
A história de Carlos e o gráfico que mentia.
Carlos analisou uma empresa por três semanas.
Leu relatórios, comparou múltiplos, estudou o gráfico, avaliou o cenário macro.
No dia da decisão, achou que o risco ainda era alto demais. Não comprou.
Três meses depois, a ação havia subido 42%.
Ao rever o gráfico, ele não viu mais dúvida, ruído ou incerteza.
Viu apenas uma linha ascendente, limpa, quase didática.
Na cabeça dele, a narrativa virou outra:
“Eu sempre soube que essa empresa era boa. Eu que fui covarde.”
Isso é falso.
Naquele dia, o futuro não estava disponível.
Ele não decidiu contra um gráfico pronto, mas contra um conjunto caótico de probabilidades.
Kahneman resume de forma precisa:
“O viés da retrospectiva nos faz acreditar que entendemos o passado muito melhor do que realmente entendíamos quando ele ainda era futuro.”
O mercado não mente.
Mas o gráfico pronto cria uma ilusão de previsibilidade que nunca existiu.
2. Aversão à perda e o efeito disposição: o cérebro odeia perder mais do que ama ganhar
Se o viés da retrospectiva explica o sofrimento olhando para trás, a aversão à perda explica o sofrimento vivendo o presente.
Perder R$ 1.000 dói mais do que ganhar R$ 1.000 dá prazer. Incrível!
Isso não é metáfora. É neurociência.
A história de Ana e as duas decisões erradas.
Ana abriu duas posições no mesmo dia.
- A opção A subiu 36% em dois dias.
- A opção B caiu 22% no mesmo período.
O que ela fez?
- Zerou a opção A rapidamente, “para garantir o lucro”.
- Manteve a opção B, esperando “voltar pelo menos ao preço de entrada”.
Dias depois, a opção A havia dobrado.
A opção B continuava ampliando o prejuízo.
Ana não estava sendo irracional. Estava sendo humana.
Richard Thaler descreve assim:
“Os investidores vendem ganhos cedo demais e seguram perdas por tempo demais. Não por estratégia, mas por dor emocional.”
Esse padrão tem nome: efeito disposição.
Ele nasce de um impulso simples — o desejo desesperado de não se sentir errado.
Arrependimento não é erro. É o custo emocional da incerteza.
Ele não nasce do mercado.
Nasce da forma como você interpreta o resultado.
Arrependimento não é sinal de falha.
É sinal de que você participou de um jogo probabilístico real.
Os dois vieses se alimentam:
- O viés da retrospectiva faz você acreditar que o passado era previsível;
- A aversão à perda faz você tomar decisões ruins no presente para não sentir dor.
Toda decisão carrega múltiplos futuros possíveis.
O cérebro aceita apenas um: o que aconteceu.
O investidor não sofre porque errou.
Ele sofre porque o cérebro sempre encontra um passado melhor do que o que ele viveu.
Morgan Housel resume da seguinte forma:
“O maior erro que investidores cometem não é perder dinheiro, é acreditar que perdas não deveriam fazer parte do jogo.”
O antídoto: trocar certezas por processos
Você não reduz arrependimento tentando prever melhor o futuro.
Você o reduz mudando a forma como julga a si mesmo.
A pergunta que realmente importa não é:
“Quanto eu ganhei ou perdi?”
mas:
“Essa foi a melhor decisão possível com as informações que eu tinha naquele momento?”
Quando o critério muda, o investidor deixa de ser refém do resultado isolado e passa a ser responsável apenas por aquilo que controla: o processo.
O mercado não remunera genialidade pontual.
Ele remunera sistemas bem desenhados, executados com consistência — inclusive nos meses em que tudo parece dar errado.
Talvez você nunca deixe de sentir arrependimento.
E isso não será sinal de fraqueza.
Será sinal de que você parou de buscar certezas impossíveis e aceitou a natureza real do processo contínuo de criação de valor:
Investir é escolher um único caminho entre milhares que jamais serão visíveis.
O investidor imaturo tenta eliminar o arrependimento.
O investidor maduro aprende a caminhar com ele — sem que ele dite suas próximas decisões.
No fim, não é o arrependimento que destrói carreiras.
É a tentativa de negá-lo, combatê-lo ou fingir que ele não deveria existir.
Porque crescer como investidor não é errar menos.
É aprender a errar de forma qualitativa, com método e consciência — e, sobretudo, encontrar paz não na ausência de perdas, mas na fidelidade ao próprio processo.
O investidor maduro entende que não é a quantidade de acertos que constrói patrimônio, mas a assimetria entre ganhos e perdas.
Ele pode perder mais vezes do que ganhar — desde que, quando perde, perca pouco, e quando ganha, ganhe muito.
No mercado, não vence quem está mais vezes certo.
Vence quem opera de forma estruturalmente assimétrica: perdas controladas, ganhos livres para crescer.
Diego Castro





Muito bom Diego!
Acabei de ler tudo. Muito bem alinhado com tudo que penso. Parabéns!
Muito bom artigo, Diego. Obg por compartilhar
Obrigado por compartilhar seu conhecimento 🙏
Sensacional, Diego! Parabens pelos temas abordados. Extremanmente importantes e certamente a realidade diária de todo trader ou investidor.
Excelente artigo, Diego! Valeu!
Muito bom Diego! Parabéns e Obrigado!