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ITUB4 no 2T26: a máquina de resultado que quase não erra.

Antes de olhar qualquer número do 2T26, vale dimensionar o que é o Itaú. É o maior banco privado da América Latina, e sua escala se traduz em dois dados que resumem seu domínio:

Sozinho, o Itaú captura mais de 20% de todo o lucro do setor bancário brasileiro. Um único banco, um quinto do lucro de um sistema com centenas de instituições.

Cerca de 30% da folha de pagamento do Brasil passa por contas do Itaú. Isso significa distribuição, base de clientes e, crucial, funding barato (o dinheiro que “dorme” em conta corrente) numa escala que quase ninguém replica.

Como o Itaú ganha dinheiro

O resultado nasce do produto bancário (~R$ 48 bi no 2T26), que soma quatro motores:

  • Margem financeira com clientes (R$ 32,6 bi): o “juro do negócio”. É o spread entre o que o banco cobra em crédito e o custo do funding, mais a remuneração do capital de giro próprio. Maior e mais estável fonte de receita;
  • Margem financeira com mercado (R$ 0,9 bi): resultado das mesas de tesouraria (banking + trading). Pequena e volátil — o “tempero”, não o prato principal;
  • Receitas de serviços (R$ 11,0 bi): cartões, adquirência (Rede), administração de fundos, conta corrente, assessoria e corretagem (Itaú BBA);
  • Seguros, previdência e capitalização (R$ 3,1 bi): prêmios e resultado de underwriting.

Desse Produto Bancário, subtrai-se o custo do crédito (provisão para calotes), as despesas (pessoal, tecnologia, marketing) e os impostos. O que sobra é o lucro.

Os braços do negócio

O Itaú se organiza em três segmentos, e vale entender o peso de cada um:

  • Varejo: R$ 5,5 bi (ROE 27,4%): pessoas físicas e pequenas empresas. Crédito imobiliário, consignado, cartões, seguros. Motor de volume;
  • Atacado: R$ 5,6 bi (ROE 27,4%): Itaú BBA (grandes empresas, banco de investimento), private banking e América Latina.
  • Mercado + Corporação: R$ 1,3 bi: excesso de capital, tesouraria e participações.

Varejo e Atacado são hoje quase do mesmo tamanho no lucro, ambos rodando ROE perto de 27%. Essa diversificação é o que dá resiliência. Geograficamente, o Brasil responde por 94,6% do resultado; a América Latina, por 5,4% (com ROE bem menor, de 12,3%).

O 2T26: mais um trimestre recorde

Vamos ao trimestre. O Itaú entregou lucro líquido recorrente gerencial de R$ 12,4 bilhões (+1,0% t/t, +7,8% a/a), com ROE consolidado de 24,3% (25,7% no Brasil). No semestre, o lucro somou R$ 24,7 bi (+9,1% a/a). A carteira chegou a R$ 1.522 bi e o capital principal (CET1) subiu para 12,3%. O quadro de destaques abaixo resume o trimestre em uma tela.

Mas como gosto de fazer por aqui, o que informa a tese não é a linha do lucro, e sim entender de onde ele vem. Vamos aos motores:

A margem com clientes: o motor principal acelerando

A margem com clientes subiu +3,3% t/t, e a “ponte” abaixo mostra exatamente por quê: o ganho veio de maior volume médio de crédito, efeito calendário (mais dias corridos) e melhor margem de passivos — não de spread. Reparem que a margem média anualizada ficou praticamente estável (9,1% consolidado; 10,0% no Brasil): o motor cresceu por quantidade, não por cobrar mais caro. Foi o grande responsável pela alta do lucro.

A margem com mercado subiu +13,6% t/t, mas ainda soma só R$ 0,9 bi. É a linha mais volátil, mas não convém ancorar tese nela.

A carteira de crédito: crescer nas linhas certas

A carteira cresceu para R$ 1.522 bi (+2,7% t/t, +9,6% a/a; +10,3% ex-câmbio). O mais importante não é o total, e sim de onde vem o crescimento. A tabela por segmento mostra a estratégia:

  • Consignado privado: +14,3% t/t e +90,1% a/a (o grande motor, puxado pelo crédito CLT);
  • Crédito imobiliário PF: +3,9% t/t e +13,3% a/a (o Itaú é o maior banco privado no segmento, com 55% de market share entre os privados);
  • Grandes empresas: +4,4% t/t (puxado por infraestrutura e energia);
  • Veículos: -3,3% a/a (retração deliberada na linha de maior risco).

Ou seja, crescimento vindo de linhas de menor risco (consignado, imobiliário, grandes empresas) coerente com a inadimplência controlada que veremos a seguir.

Inadimplência: o ativo mais valioso do trimestre

O indicador que mais sustenta a tese de ITUB4 é o NPL 90 dias: 1,9%, estável t/t e a/a. Para um banco que cresceu a carteira 9,6% em 12 meses, manter o calote inerte é o que separa crescimento saudável de crescimento perigoso. E nem precisamos citar outros bancos como exemplo oposto.

Nos gráficos, as linhas estão quase deitadas há vários trimestres. O NPL curto (15-90 dias) ficou em 1,8%, alta de apenas 0,1 p.p. concentrada na América Latina, e no Brasil, estável. Por segmento, é normalização controlada: pessoas físicas estáveis e pequenas empresas subindo de forma esperada (fim das carências dos programas governamentais). Vale destacar que o “Desenrola” teve impacto imaterial (-0,02 p.p.).

E a defesa é robusta: a cobertura do estágio 3 (provisão sobre a carteira problemática) segue em ~59%, com a carteira em estágio 2 e 3 estável.

Custo do crédito: a máquina roda sem esquentar

O custo do crédito foi de R$ 10,1 bi (+1,9% t/t) e cresceu junto com a carteira. Mas o indicador-chave, é o custo sobre a carteira, que permaneceu cravado em 2,7% há seis trimestres. Aqui está a joia: a máquina cresce sem deteriorar qualidade. A carteira renegociada até recuou (de 3,2% para 2,6% da carteira em 12 meses).

Serviços e seguros: o ruído do trimestre

Serviços e seguros somaram R$ 14,1 bi, +0,4% t/t. A tabela mostra o descompasso: administração de recursos (+4,6%) e assessoria/corretagem cresceram, mas conta corrente PF caiu -7,4% t/t, reflexo direto da estratégia de isenção de tarifas do programa Mais Vantagens.

E é aqui que mora o principal ponto de atenção do trimestre: foi justamente esta linha a única do guidance revisada para baixo — de “5,0% a 9,0%” para “2,0% a 5,0%”, como veremos mais adiante. Ou seja, o “ruído” do 2T26 tem nome e sobrenome, e nasce em boa parte de uma escolha estratégica (relacionamento acima de tarifa), não de perda de competitividade.

Destaque para o Itaú BBA: 1º em renda fixa (ANBIMA) e 2º em M&A (Dealogic).

Eficiência e capital

As despesas subiram +3,3% t/t (sazonal, com marketing de Copa do Mundo), mas o índice de eficiência ficou em 37,4% (35,5% no Brasil) um dos melhores do mundo para um banco desse porte. E é sempre bom lembrar, índice de eficiência, quanto menor, melhor: o banco gasta pouco para gerar cada real de receita.

No capital, o CET1 subiu para 12,3% e a Basileia para 15,4%. Forte geração orgânica. No trimestre foram provisionados R$ 3,8 bi em dividendos e JCP.

O Ke: por que 24% de ROE é ainda mais impressionante do que parece

Aqui entra o conceito básico que sempre gostamos de destacar (ROE vs. custo de capital). O Itaú tornou explícito no Fato Relevante: a partir de agosto/26, passou a considerar um custo de capital (Ke) de ~14,75% a.a. na gestão dos negócios.

Traduzindo: o acionista “empresta” capital ao banco e cobra ~14,75% ao ano pelo risco. Todo retorno acima disso é valor criado; abaixo, é valor destruído. Com ROE de 24,3%, o Itaú roda quase 10 p.p. acima do próprio custo de capital, um spread de valor gigantesco e raro.

E o mais importante para a tese: o gráfico mostra que esse spread vem se ampliando. A criação de valor (lucro menos o custo do capital empregado) cresceu 23% no 1S26 vs. 1S25. É por isso que ITUB4 negocia a P/VP elevado: o mercado paga caro por um patrimônio que rende muito acima do que custa financiá-lo. Patrimônio produtivo vale sempre mais.

Guidance 2026: quase tudo mantido, uma revisão para baixo

No Fato Relevante mencionado anteriormente, o Itaú manteve quase todo o guidance, ótimo, sinal de confiança! Carteira (5,5% a 9,5%), margem com clientes (5,0% a 9,0%) e custo do crédito (R$ 38,5 a 43,5 bi) foram mantidos. A única revisão, para baixo, foi na receita de serviços e seguros: de “5,0% a 9,0%” para “2,0% a 5,0%”.

É o ponto de atenção do trimestre: as tarifas crescem menos que o esperado, em parte pela própria escolha de isentar tarifas para ganhar relacionamento. Pela qualidade e eficiência da gestão nas últimas décadas, pode valer o benefício da dúvida.

Riscos a monitorar

  • Receitas de serviços: desaceleração já refletida no corte de guidance; a monetização via tarifa PJ está sob pressão pela estratégia comercial;
  • Ciclo de crédito: a inadimplência está em patamar historicamente baixo; qualquer normalização mais forte pressionaria o custo do crédito;
  • América Latina: ROE de 12,3% (bem abaixo do Brasil) e efeito cambial adverso seguem diluindo o retorno consolidado;
  • Base de comparação alta: com ROE de 24%+ e eficiência recorde, a barra para surpresas positivas fica cada vez mais elevada.

Conclusão

O 2T26 confirma a tese de ITUB4: um banco que combina rentabilidade altíssima (ROE 24%), inadimplência baixa e estável (1,9%) e eficiência de classe mundial (37%), um tripé que pouquíssimos bancos no mundo sustentam ao mesmo tempo. 

A máquina cresce carteira em linhas de baixo risco, sem deteriorar qualidade, e gera capital de sobra para distribuir dividendos.

O único ruído foi o corte no guidance de serviços, que vale acompanhar de perto, mas, como vimos, nasce mais de uma escolha estratégica do que de perda de competitividade. Podendo até mesmo ser mais um acerto da gestão.

Como diria a nossa lógica de sempre: aqui o resultado não é sorte de um trimestre, é arquitetura. O desafio da tese não é a qualidade do banco, mas sim o preço que se paga por ela.

Abraços!

Analista Dedicado

Escrito por Diego Castro

Estou no mercado financeiro como investidor desde 2011 e, ao longo dessa jornada, a bolsa deixou de ser apenas números e gráficos para se tornar uma verdadeira escola de aprendizado na minha vida. Investir virou muito mais do que um hobby, é uma paixão!

Acredito no poder do longo prazo, em empresas sólidas e boas pagadoras de dividendos, mas sempre atento às oportunidades de curto e médio prazo, especialmente com ações e opções. Sou movido por aprendizado constante, e pela vontade de evoluir todos os dias como investidor. Acredito demais no poder da educação financeira, então, mais do que buscar resultados, meu objetivo é compartilhar conhecimento de forma simples, prática e responsável, e incentivar, cada vez mais, pessoas a investirem com consciência, disciplina e visão de futuro.

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