Olá Clube Investfy!
Hoje vamos revisitar a tese de MELI, após a divulgação dos resultados do 2Tri2026. Caso não tenha visto o artigo anterior, clique no link: MELI — a maior história de sucesso da América Latina! – Investfy
1. Principais mudanças do 1T26 para o 2T26
O 2T26 reforçou a força do ecossistema do Mercado Livre, mas também evidenciou um custo crescente para sustentar o ritmo de expansão.

- Receita recorde de US$ 10,2 bilhões (+50% YoY).
- GMV de US$ 21,9 bilhões (+44%) e TPV de US$ 101 bilhões (+56%).
- Carteira de crédito de US$ 16,4 bilhões (+75%).
- NIMAL recuperou de 17,8% para 20,7%.
- Margem operacional caiu para 6,7%, contra 12,2% um ano antes.
- Compressão de margens puxada por descontos via PIX, redução de take rates para sellers, custos logísticos e investimentos em adquirência.
2. Modelo de negócio: um ecossistema poderoso, mas mais caro de sustentar
Mercado Livre continua operando um dos ecossistemas digitais mais completos da América Latina, integrando marketplace, logística, publicidade, pagamentos, crédito e serviços financeiros.
O principal destaque estratégico do trimestre foi a evolução dos usuários ecossistêmicos. Clientes que utilizam simultaneamente Mercado Livre e Mercado Pago apresentam GMV cerca de 70% superior e TPV aproximadamente 90% maior do que usuários que utilizam apenas um dos lados do ecossistema.
Esse diferencial continua fortalecendo o flywheel da companhia. Entretanto, o 2T26 mostrou que parte dessa aceleração está sendo comprada através de incentivos que reduzem monetização no curto prazo. O potencial de rentabilidade futura continua elevado, mas o trimestre não evidenciou expansão dessa rentabilidade.
3. Crescimento continua forte, mas a conversão em lucro piorou
A receita líquida e financeira cresceu 50%, atingindo US$ 10,17 bilhões. O GMV avançou 44% e o TPV 56%, enquanto compradores ativos chegaram a 89,3 milhões e usuários ativos do Mercado Pago atingiram 88 milhões.
Os indicadores operacionais continuam impressionantes. Itens vendidos por comprador cresceram 14%, enquanto as entregas no mesmo dia ou dia seguinte avançaram 38%.

Contudo, a qualidade financeira desse crescimento piorou. Apesar da forte expansão da receita, o lucro operacional caiu 17%, para US$ 683 milhões, e o lucro líquido recuou 11%, para US$ 466 milhões.

A margem operacional caiu de 12,2% para 6,7% em apenas um ano. Em outras palavras, a MELI continua crescendo rapidamente, mas cada dólar adicional de receita gera menos lucro do que anteriormente.
4. E-Commerce: crescimento impulsionado por incentivos
O Brasil continua sendo o principal motor de crescimento da companhia. A redução do limite para frete grátis implementada no ano passado seguiu gerando melhora de conversão, retenção e frequência.

No entanto, a empresa aprofundou sua estratégia ao conceder descontos para pagamentos via PIX e reduzir seletivamente as take rates cobradas dos sellers.
Do ponto de vista operacional, os resultados foram positivos. A competitividade de preços melhorou e os sellers ativos cresceram 29%.
Do ponto de vista econômico, existe um custo claro. Tanto os descontos via PIX quanto a redução das take rates diminuem diretamente a receita por transação e pressionam a margem bruta.
A principal dúvida passa a ser se o crescimento de sellers e o ganho de participação serão capazes de compensar a perda atual de monetização. Por enquanto, essa compensação ainda não aparece claramente nos resultados consolidados.
5. México e Argentina: crescimento continua, mas margens sofrem
No México, o GMV cresceu 26% em moeda constante, mesmo enfrentando os efeitos da reforma tributária e de um ambiente de consumo mais fraco.
A margem local sofreu pressão devido ao aumento dos custos dos dispositivos POS, investimentos para aquisição de usuários e iniciativas comerciais voltadas à sustentação da demanda.
Na Argentina, embora o crescimento continue relevante, a desaceleração do consumo reduziu a diluição de custos e também pressionou a rentabilidade.
Em ambos os mercados, a companhia optou por preservar crescimento e participação de mercado, mesmo com impacto negativo nas margens.
6. Mercado Pago e Crédito: melhora operacional, mas exigindo mais capital
A carteira de crédito alcançou US$ 16,4 bilhões, com inadimplência entre 15 e 90 dias próxima de mínimas históricas.
O NIMAL melhorou significativamente na comparação trimestral, beneficiado pela normalização das provisões no Brasil. Ainda assim, continua abaixo do patamar registrado um ano atrás.

O principal desafio continua sendo o cartão de crédito. A aceleração das emissões aumentou sua participação na carteira, mas manteve o NIMAL dessa linha em território negativo.
A administração argumenta que as coortes se tornam lucrativas após 12 a 18 meses. O racional é convincente, mas também posterga a recuperação da rentabilidade média da operação.

Outro ponto a acompanhar é o avanço da inadimplência acima de 90 dias, que aumentou sequencialmente durante o trimestre.
7. Inteligência Artificial: oportunidade relevante, mas ainda em construção
MELI investiu aproximadamente US$ 80 milhões adicionais em IA na comparação anual.
Os resultados operacionais parecem positivos. Ferramentas de busca melhoraram conversão, anúncios ficaram mais eficientes, atendimento ao cliente tornou-se mais automatizado e a produtividade dos desenvolvedores aumentou significativamente.
Apesar disso, ainda é cedo para atribuir à IA uma melhora estrutural nas margens consolidadas. Os benefícios são claros, mas sua materialização financeira em larga escala ainda precisa ser comprovada.
8. Margens: principal preocupação do trimestre
O grande tema do 2T26 foi a deterioração da rentabilidade.
A margem operacional caiu para 6,7%, enquanto a margem bruta sofreu compressão de 2,8 pontos percentuais frente ao trimestre anterior.
Os principais fatores foram:
- descontos via PIX;
- redução seletiva das take rates;
- aumento dos custos logísticos;
- investimentos em adquirência;
- custos maiores dos dispositivos POS;
- iniciativas comerciais para sustentar demanda em mercados mais fracos.
A administração trata essas pressões como investimentos deliberados para fortalecer o ecossistema. O investidor, porém, precisa acompanhar se esses investimentos gerarão retorno suficiente para justificar a forte compressão observada na lucratividade.

O fluxo de caixa livre ajustado caiu para US$ 214 milhões, refletindo tanto o aumento dos investimentos quanto os US$ 2,1 bilhões direcionados à expansão da carteira de crédito.
Conclusão
O 2T26 confirmou que Mercado Livre continua sendo uma das histórias de crescimento mais impressionantes da América Latina. Receita, GMV, TPV, usuários e carteira de crédito seguem avançando em ritmo elevado.
Entretanto, o trimestre também mostrou que esse crescimento está se tornando mais caro. A empresa reduziu comissões de sellers, ofereceu descontos aos consumidores, absorveu maiores custos logísticos e continuou investindo agressivamente em adquirência e crédito.
Essas decisões fortaleceram competitividade, engajamento e participação de mercado, mas pressionaram significativamente as margens e o fluxo de caixa.
A grande questão para os próximos trimestres não será mais a capacidade da MELI de crescer. Isso ela continua demonstrando. O ponto central será provar que os descontos, subsídios e investimentos atuais conseguirão se transformar em maior rentabilidade futura.
A tese permanece forte do ponto de vista competitivo. Financeiramente, porém, o ônus da prova sobre a recuperação das margens aumentou.
Negociando a 50x Preços sobre lucro, sigo de fora por enquanto.
Forte abraço!
Rodrigo Silveira






