Olá, pessoal!
Seguimos acompanhando de perto o Banco do Brasil — e, como prometido, volto após a divulgação do 4T25 para atualizar a leitura. O trimestre trouxe algum alívio marginal em linhas-chave (margem e resultado), pressão ainda alta no custo do crédito e sinais de disciplina na execução, porém é importante destacar o Efeito positivo de crédito tributário, que reforçou o resultado contábil e contribuiu para a inflexão vista no lucro líquido com um salto inesperado pelo mercado.
1) Ajustes contábeis e seus impactos continuam reverberando
A Resolução CMN nº 4.966/21 seguiu condicionando a leitura dos números, com mudanças em reconhecimento de juros, perda esperada e diferimentos — o que quebra a comparabilidade com anos anteriores, especialmente em margem financeira, serviços e perdas esperadas.
- Lucro Líquido Ajustado: R$ 5,7 bi no 4T25 (↑ 51,7% t/t) e R$ 20,7 bi em 2025 (↓ 45,4% a/a).
- Margem Financeira Bruta (MFB): R$ 27,8 bi no 4T25; R$ 103,1 bi em 2025 (↓ 0,8% a/a), com queda nas despesas de captação no trimestre e melhora em PF, em linha com a estratégia de mix.
- Custo do Crédito: R$ 18,0 bi no 4T25 (estável t/t); R$ 61,9 bi em 2025, refletindo a maior pressão de risco — notadamente no agro.
Do lado qualitativo, a administração reforçou três pontos: (i) ALM posicionado (ativos prefixados x passivos flutuantes) que se beneficia da queda da Selic via redução do custo de funding; (ii) foco na margem com clientes, com o mix migrando para PF; (iii) ações no passivo (ex.: troca de instrumentos mais caros por captações mais baratas) que ajudam a sustentação da margem.
2) Inadimplência: o agro continua o vetor crítico
O NPL +90 dias encerrou dez/25 em 5,17% (↑ 66 bps vs. set/25).No agro, o indicador chegou a 6,09%; em PF, 6,56%; e em PJ, 3,75% — este último impactado por um caso específico em TVM; excluindo-o, seria 2,86%. A empresa reforçou que este caso já foi sanado em Jan-2026. A cobertura 90d ficou em 155,4% (↓ vs. 3T).
O banco acelerou a agenda de mitigação:
- BB Regulariza Agro (MP 1.314): R$ 35,5 bi contratados (dos quais R$ 32,2 bi em recursos livres e R$ 3,5 bi supervisionados), ~21 mil clientes em ~29 mil operações até dez/25; 72,9% com alienação fiduciária; foco em clientes com capacidade de pagamento (caso a caso).
- O programa traz alívio de capital (dentro de limites) e melhora o perfil de garantias; a inadimplência do agro ainda pressiona 1T26, com tendência de alívio progressivo a partir do 2S26, à medida que a safra, a recomposição de fluxo e o novo framework de concessão ganham tração.
Em PF, a formação de NPL desloca-se para cartão e crédito não consignado; o banco recalibrou a régua de renegociação/parcelamento para preservar adimplência e ajustou o mix ao consignado (público e “Crédito do Trabalhador”).
3) Guidance revisado e mais conservador
2025 foi encerrado dentro do guidance ajustado, com disciplina em despesas administrativas (ponta baixa) e lucro (ponta alta). Para 2026, os vetores são explícitos:
- Carteira de Crédito (global): crescimento modesto; PF com alta de 6–10%; Empresas 0,5–4,5%; Agro -2% a +2% (rebalanceamento de risco-retorno).
- Custo do Crédito (PDD): R$ 53–58 bi (ainda elevado; 1T26 mais próximo do 4T25, com acomodação ao longo do ano).
- Despesas Administrativas: +5–9% (ciclo salarial do setor + investimentos seletivos em tecnologia/IA, com disciplina).
- Lucro Líquido Ajustado 2026: crescimento ~15–26% vs. 2025, com NII de clientes e funding como pilares.
A leitura central: crescer onde a rentabilidade ajustada ao risco é superior (PF/consignado), conter Agro no curto prazo e preservar capital até que a inadimplência normalize.
4) Capital e dividendos: cautela é a palavra da vez
Os índices de capital melhoraram no 4T: Capital Principal 12,23%, Nível I 14,26%, Basileia 15,13% (↑ vs. set/25), suportados por medidas regulatórias e retenção orgânica.
Pelo lado prospectivo, a administração reforçou que:
- o benefício de capital associado à MP 1.314 tem prazo e tende a decrescer à medida que os saldos amortizam, mitigado por reposição com operações remanescentes; a meta é manter CET1 confortável enquanto a rentabilidade volta à normalidade.
- Fatores regulatórios de 2026 (2ª fase do IFRS 9 ~25 bps; risco operacional ~10 bps) e gestão de passivos (ex.: recompra/repagamento de híbridos setoriais ligados ao agro, ~10 bps) entram no radar — com gerenciamento para suavizar impactos.
Na remuneração, os JCP/Dividendos somaram R$ 5,2 bi em 2025 (R$ 0,91/ação), bem abaixo de 2024, refletindo a postura conservadora diante do ciclo de crédito e das mudanças contábeis.
6) Um exercício de cenários:
Com base na análise do balanço, do call de resultados e do comportamento gráfico do ativo, adotei as seguintes premissas para a construção dos cenários abaixo: (i) o banco não deverá apresentar prejuízo contábil que impacte negativamente seu patrimônio líquido; (ii) o lucro líquido ajustado de 2026 deverá atingir o ponto médio do guidance divulgado; e (iii) não devemos revisitar o cenário mais pessimista do período do governo Dilma, quando o banco chegou a ser negociado a 0,5x P/VP — patamar que sequer foi próximo de ser testado em 2025, mesmo nos momentos de maior estresse nas cotações das ações.

Diante dessas premissas, entendo que, caso as ações recuem para um nível próximo de R$ 21,00, voltamos a observar algum potencial de valorização para investimentos de mais longo prazo. Isso se justifica pela expectativa de melhora do ciclo do agronegócio, além da variável eleitoral, que ainda permanece como um fator relevante a ser acompanhado.

Conclusão:
O Banco do Brasil fecha um ano excepcionalmente desafiador com alguns sinais iniciais de estabilização no 4T, mas a inadimplência (especialmente no agro) ainda pede cautela. A estratégia para 2026 é conservadora onde precisa (agro/empresas) e oportunista onde pode (PF/consignado). Se a execução permanecer no trilho e o ciclo de crédito arrefecer como esperado, a normalização lenta tem chance de se materializar.
No preço certo, que não é o preço atual de tela, acho possível olhar compras.
Nos vemos nos próximos trimestres — e sigo atualizando.







Boa, Rodrigao!
Abriu janela lá atrás e deu chance, mas a janela fechou!
Agora vamos esperar para ver se abre outra!!
Excelente estudo, Rodrigo!