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Brasil: Eleições, Juros e o Retorno do Risco

O mercado começa a precificar uma combinação mais favorável entre ciclo monetário e cenário eleitoral

A leitura conjunta do relatório LatAm Equity Alpha, do BofA Global Research, e do artigo publicado pelo ZeroHedge aponta para uma mudança relevante na percepção de risco sobre os ativos brasileiros. De um lado, a tese fundamental ganha força com a perspectiva de um ciclo de flexibilização monetária mais profundo. De outro, o posicionamento de mercado começa a incorporar uma disputa presidencial muito mais competitiva do que se observava anteriormente.

Um cenário macroeconômico mais construtivo

O BofA elevou o Brasil de marketweight para overweight, em uma revisão sustentada principalmente pela expectativa de desaceleração da atividade, menor pressão inflacionária e, consequentemente, espaço para cortes adicionais da Selic. A instituição passou a projetar a taxa básica em 11,25% ao final de 2027, ante previsão anterior de 12,75% e abaixo dos aproximadamente 14% atualmente precificados pelo mercado.

A importância dessa mudança vai além da trajetória da Selic. Para o BofA, a queda dos juros tende a reduzir o desconto aplicado aos múltiplos das ações, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao custo de capital. O banco observa que o Ibovespa, excluindo commodities, negocia com aproximadamente 10% de desconto em relação à média histórica, enquanto papéis domésticos mais dependentes de juros apresentam descontos ainda maiores.

O ponto central: a tese de alta não depende necessariamente de uma aceleração imediata dos lucros. O principal vetor pode ser a expansão dos múltiplos à medida que o mercado passe a enxergar uma trajetória estruturalmente mais baixa para os juros reais.

Fluxo estrangeiro e mudança de posicionamento

O movimento já começa a aparecer nos fluxos. Segundo o BofA, investidores estrangeiros voltaram a comprar ações brasileiras, com R$ 6 bilhões de entradas em renda variável nos dez dias anteriores, revertendo parcialmente os R$ 20 bilhões de saídas acumuladas nos três meses anteriores. O relatório também identifica sinais de short covering, com algumas das ações mais vendidas a descoberto apresentando desempenho superior desde meados de agosto.

Esse comportamento é particularmente relevante porque ocorre antes de uma confirmação completa da melhora dos fundamentos. Em outras palavras, o mercado parece estar antecipando uma combinação de juros menores, valuation comprimido e eventual redução do prêmio de risco associado ao ciclo eleitoral.

Exposição e racional setorial do portfólio brasileiro do BofA Global Research. O banco privilegia geração de caixa, empresas líquidas, balanços sólidos e negócios com maior sensibilidade à queda dos juros.

A eleição entra no centro da equação

É nesse ponto que a leitura do ZeroHedge complementa a análise macro. O artigo destaca o estreitamento da disputa presidencial e o aumento da atividade em opções do ETF iShares MSCI Brazil (EWZ). A referência a um nível recorde de open interest em calls sugere que parte dos investidores está buscando exposição assimétrica a uma valorização dos ativos brasileiros caso o cenário político evolua de forma favorável.

Probabilidades eleitorais apresentadas no artigo do ZeroHedge, com base em dados de mercado de previsão. O gráfico ilustra a forte mudança de percepção ao longo do período.

O dado político mais relevante é a convergência entre pesquisas e mercados de previsão. O levantamento citado pelo artigo atribui 50,4% a Flávio Bolsonaro e 49,6% a Lula em uma simulação de segundo turno, enquanto os mercados de previsão ainda mantêm vantagem para Lula. A diferença entre essas métricas é importante: ela mostra que o mercado financeiro ainda não está tratando uma eventual vitória da oposição como cenário-base, mas já existe demanda por proteção ou participação em um movimento de reprecificação.

http://Arend%20Kapteyn,%20chefe%20global%20de%20pesquisa%20de%20economia%20e%20estratégia%20do%20UBS

O que o mercado pode estar antecipando

As duas fontes, apesar de partirem de perspectivas distintas, convergem em um ponto: o Brasil pode estar entrando em uma fase de maior sensibilidade dos preços de ativos à combinação entre política monetária e política fiscal.

Uma eleição percebida como capaz de produzir um programa fiscal mais crível teria impacto potencialmente amplo. A análise reproduzida pelo ZeroHedge, a partir do UBS, estima que um resultado acompanhado de consolidação fiscal poderia reduzir os juros reais em pelo menos 2,5 pontos percentuais, elevar o crescimento potencial em cerca de 1 ponto percentual e reduzir a inflação estrutural.

Essa hipótese ajuda a explicar por que o tema eleitoral pode funcionar como catalisador para ativos que já apresentam valuation descontado. Uma melhora simultânea na percepção fiscal e na trajetória de juros poderia produzir uma compressão do prêmio de risco e uma expansão dos múltiplos, ampliando o efeito sobre ações domésticas.

Mas o risco fiscal permanece

A tese, contudo, está longe de ser linear. O próprio BofA mantém o risco de revisões negativas de lucros como uma preocupação relevante e destaca a incerteza fiscal após as eleições. A estrutura rígida de despesas limita o espaço para uma consolidação rápida, enquanto o endividamento público exige um ajuste significativo.

Por isso, a recomendação do banco não representa uma aposta indiscriminada em ativos de risco. A estratégia combina exposição a segmentos mais beneficiados pela queda da Selic com empresas de grande liquidez, forte geração de caixa, balanços robustos e histórico comprovado de execução. Entre os setores favorecidos estão financeiros, empresas de saúde, consumo básico e tecnologia, enquanto o BofA mantém exposição mais neutra a Vale e Petrobras.

O ponto de inflexão

O que se desenha é um mercado que começa a operar menos em torno do nível corrente dos juros e mais em torno da trajetória futura do prêmio de risco brasileiro. Se a desaceleração econômica permitir cortes mais profundos, como projeta o BofA, e a eleição reduzir a incerteza fiscal em vez de ampliá-la, existe espaço para uma reprecificação relevante dos ativos locais.

Por outro lado, uma trajetória de flexibilização menor que a esperada, deterioração fiscal ou aumento da volatilidade eleitoral poderia interromper esse movimento. O elevado interesse em calls de EWZ também indica que parte do mercado já está posicionada para um cenário positivo, o que aumenta a importância do posicionamento e da assimetria de preços.

Em síntese, o Brasil entra no último trimestre de 2026 com uma configuração incomum: valuation descontado, expectativa de queda dos juros, retorno de fluxo estrangeiro e uma eleição capaz de alterar significativamente o prêmio de risco. O próximo movimento do mercado dependerá menos de uma variável isolada e mais da interação entre esses quatro fatores.

Fontes:
BofA Global Research — LatAm Equity Alpha: Raising the sails: moving Brazil to overweight, 8 de setembro de 2026.
ZeroHedge — Bolsonaro Leads Socialist Lula As “Huge Bet” On Right-Wing Victory Fuels Brazil ETF Options Frenzy, 8 de setembro de 2026.

Este artigo é uma síntese editorial baseada nas duas fontes acima. Dados, projeções e opiniões atribuídos a terceiros devem ser interpretados como informações das respectivas fontes, não como recomendação de investimento.

Time Investfy

Escrito por Murilo

Amigo do clube.

Investfy crew.

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