Boa tarde Clube IFY!
Aproveito a pausa neste final de semana para atualizar a Tese de Bradesco, que acompanhamos por aqui já faz algum tempo.
Bradesco – o capitão manteve o navio na rota certa certa – Investfy
Bradesco – O capitão colocou o navio na direção certa! – Investfy
https://investfy.com/bradesco-o-que-mudou-o-que-ficou-claro-e-o-que-precisa-tempo/
Os resultados do 1T26 do Bradesco reforçam os pilares centrais da tese de turnaround já discutida nos relatórios de Visão 3T25 e 4T25: crescimento com disciplina, rentabilidade em trajetória de melhora, qualidade de ativos sob controle e execução consistente da agenda de transformação.
O banco entregou o nono trimestre consecutivo de crescimento do lucro recorrente, com o ROAE se aproximando do custo de capital e com o crescimento de receitas claramente estabelecido como o principal vetor de expansão dos resultados. De forma relevante, essa melhora não decorre de eventos pontuais, mas sim de uma mudança estrutural no mix de negócios, na disciplina de precificação e na alocação de capital.
O trimestre também marca um importante marco estratégico com a criação e listagem da Bradsaúde, destravando valor relevante dentro do ecossistema de seguros e fortalecendo de forma material os índices de capital.
1. Como o Bradesco ganha dinheiro – o motor de receitas está funcionando:
O Bradesco segue como um banco universal, com geração de resultados diversificada entre varejo, atacado, crédito e, de forma crítica, seguros, que continuam sendo o negócio de maior retorno do grupo.
No 1T26, as receitas totais cresceram 14,0% a/a, reforçando a leitura de que o crescimento do top line e não apenas corte de custos, é a principal alavanca para uma expansão sustentável do ROE. Os principais destaques foram:
- Margem financeira (NII): +16,4% a/a, sustentada pelo crescimento da carteira, spreads estáveis e melhor gestão de ativos e passivos.
- Seguros, previdência e capitalização: +20,4% a/a, com forte desempenho operacional e sinistralidade sob controle.
- Receitas de prestação de serviços: +6,2% a/a, apesar da sazonalidade que tradicionalmente torna o primeiro trimestre o mais fraco do setor.

A gestão reforçou repetidamente a lógica de causa e efeito: melhor segmentação, disciplina de preços e gestão ativa de portfólio estão se traduzindo em receitas estruturalmente mais altas, e não em ganhos cíclicos ou oportunistas.
2. Gestão e alocação de capital – consistência acima do discurso:
O tom e o conteúdo da comunicação da gestão seguem altamente consistentes com a execução, o que reforça credibilidade. As mensagens-chave permanecem inalteradas:
- Apetite a risco moderado, com ajustes seletivos em segmentos específicos, e não uma retração do crescimento.
- Foco em retorno ajustado ao risco (RAR), e não em expansão de volume a qualquer custo.
- Manutenção dos investimentos em tecnologia e dados, mesmo com impacto de curto prazo sobre custos.
Uma decisão relevante de alocação de capital no trimestre foi a liquidação de uma contingência fiscal relevante (R$ 1,8 bilhão), que não afetou o lucro recorrente, mas elevou a qualidade do balanço. Trata-se de uma postura conservadora e de longo prazo, priorizando resiliência e transparência em vez de resultados cosméticos.
3. Qualidade da carteira – controle e visibilidade
Os indicadores de crédito permanecem dentro da zona de conforto da gestão, mesmo em um ambiente macroeconômico mais desafiador. Os principais pontos são:
- Inadimplência acima de 90 dias em 4,2%, praticamente estável t/t.
- Redução do estágio 3, com queda relevante da carteira reestruturada desde 2023.
- Crescimento da carteira com garantias, que já se aproxima de 61% do total e chega a quase 70% no varejo.

O aumento pontual do custo do crédito no trimestre foi amplamente explicado por reforços conservadores de provisão em casos específicos do atacado e por exposições rurais antigas, e não por deterioração disseminada da carteira. A gestão foi clara ao afirmar que as novas safras estão performando dentro das perdas esperadas, especialmente sob a ótica da Resolução 4.966.
4. Vetores estratégicos de crescimento – qualidade acima de velocidade:
O Bradesco segue direcionando capital para segmentos com melhor retorno ajustado ao risco:
- Consignado: forte aceleração no consignado privado, com inadimplência bem abaixo da média de mercado.
- Financiamento de veículos: crescimento impulsionado por unificação de plataformas e melhor precificação, não por concessões agressivas.
- PMEs e crédito com garantias (FGI/FGO): posição de liderança com disciplina na originação.
- Seguros: segue como o principal motor de valor do grupo, com ROAE acima de 20%.
A criação da Bradsaúde é especialmente relevante. A gestão indicou um valor de mercado estimado em cerca de R$ 46 bilhões, implicando uma mais-valia superior a R$ 30 bilhões em relação ao valor contábil. Esse movimento cristaliza uma parte importante da tese de soma das partes e reduz a opacidade em torno dos ativos de seguros.
5. Eficiência, footprint e tecnologia – ganhos estruturais:
A eficiência operacional continua em trajetória de melhora:
- Índice de eficiência em 49,2%, com queda tanto t/t quanto a/a.
- Continuidade no ajuste do footprint físico, com novas revisões de agências no trimestre.
- 28 milhões de clientes fully digital, avanço relevante frente ao final de 2025.
- Redução de 238 agências no ultimo trimestre e 1414 agências no ultimo ano.

De forma importante, a disciplina de custos não vem às custas da competitividade. Os investimentos em tecnologia e IA permanecem elevados, com a gestão priorizando produtividade, segurança e experiência do cliente no longo prazo, mesmo com impacto de curto prazo nas despesas.
6. Implicações para valuation – do turnaround à normalização:
Sob a ótica do value investing, a narrativa vem mudando de forma clara:
- O Bradesco deixou de destruir valor e passou a criar valor, com ROAE se aproximando do custo de capital.
- O crescimento dos lucros é liderado por receitas e recorrente, reduzindo dependência de fatores macro.
- O ecossistema de seguros está mais transparente, o que sustenta múltiplos mais elevados ao longo do tempo.
Embora o papel já não se enquadre mais como um turnaround profundo, ele passa a se parecer cada vez mais com uma grande franquia financeira em estágio inicial de normalização e composição de valor, ainda negociando abaixo do seu valor intrínseco quando se considera ROE normalizado e a opcionalidade da soma das partes.

Ao compararmos o valuation de Bradesco com os pares, vemos que há potencial de reprecificação, desde que o banco continue evoluindo e entregando ROE crescente nos próximos trimestres.
7. Principais riscos a monitorar
- Piora do cenário macro, especialmente em agronegócio e PMEs, que pode postergar nova expansão do ROE.
- Trajetória de custos, dado o ritmo elevado de investimentos em tecnologia.
- Risco de execução na expansão do consignado privado e do crédito para PMEs sem relaxamento dos critérios de risco.
Esses riscos são explicitamente reconhecidos pela gestão e parecem já refletidos no guidance e na política de provisões.
Conclusão
Os resultados do 1T26 reforçam a tese de investimento construída ao longo dos relatórios de Visão 3T25 e 4T25. O Bradesco segue executando um turnaround gradual, crível e disciplinado, ancorado em crescimento de receitas, gestão prudente de risco e alocação inteligente de capital.
O cenário Macro pode ser desafiador no curto prazo, mas o comandante já mostrou ao navegar com este navio através do Turnaround.
Forte abraço,
Rodrigo Silveira







Genial mestre!!! Muitíssimo obrigado por compartilhar!!! A síntese ficou muito , muito boa!!! Parabéns pela análise!